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RD Saúde e a jornada gourmetizada

A matéria do Estadão apresenta a decisão da RD Saúde como um gesto moderno de competitividade, qualidade de vida e adaptação às novas expectativas dos trabalhadores. Mas essa narrativa precisa ser confrontada com a realidade vivida pelos farmacêuticos e farmacêuticas da rede.

Na prática, a RD não simplesmente “acabou com a escala 6x1” para entregar uma jornada mais humana. No caso dos farmacêuticos em São Paulo, o que foi colocado em debate foi a escala 3x1, com jornada diária de 8h48, intervalo de 1h12 e manutenção da carga semanal de 44 horas. O próprio SINFAR/SP ajuizou ação trabalhista contra a Raia Drogasil por alterações no contrato e na jornada de trabalho, especialmente sobre a escala 3x1.

Uma escala que concentra mais horas no dia, aumenta o desgaste físico e mental e mantém a carga semanal em 44 horas não pode ser vendida como grande conquista civilizatória. Já havíamos alertado que a escala 3x1 significa “mais trabalho e responsabilidade”, com jornadas superiores a 8 horas por dia, risco de cansaço extremo, prejuízo à saúde do trabalhador e possível comprometimento do atendimento à população.

Também não é verdade que essa mudança tenha nascido de um processo exemplar de diálogo social. O SINFAR/SP não foi consultado nem participou de negociação com a RD para essa alteração de jornada. A empresa deveria ter comunicado formalmente ao sindicato as mudanças pretendidas na escala de trabalho.

Outro ponto central: a chamada “escala 5x2” não significa, necessariamente, redução de jornada. Reportagem da Folha de S.Paulo, publicada em 9 de maio de 2026, registrou que, mesmo com dois dias de folga na semana, os trabalhadores da RD continuavam cumprindo 44 horas semanais. Ou seja, muda-se a distribuição dos dias, mas não se enfrenta o problema estrutural da sobrecarga.

Além disso, causa estranhamento que a empresa tente se apresentar como referência em qualidade de vida quando há reclamações da categoria sobre o cumprimento efetivo das folgas. A Convenção Coletiva aprovada em São Paulo prevê a concessão de duas folgas consecutivas por trimestre em unidades com três ou mais farmacêuticos. Se esse direito não está sendo garantido na prática, não há modernização: há descumprimento de uma conquista coletiva.

O SINFAR/SP, em negociação envolvendo jornada, cobrou padronização das escalas, ciência prévia das folgas, garantia de folgas consecutivas e respeito integral ao intervalo para refeição e descanso.

O fim da escala 6x1 é uma pauta legítima e urgente. Mas não pode ser usado como peça de marketing por grandes redes que apenas reorganizam a escala, mantêm 44 horas semanais e impõem jornadas mais longas no dia a dia.

O que vemos é uma nova embalagem para a velha exploração!