Um ensino para além das quatro paredes
(Revista Sinfarma de março de 2001)
O ano de 2001 mal começou e já promete trazer grandes discussões
sobre a profissão farmacêutica no país. Pela primeira vez, o curso
de ciências farmacêuticas será avaliado pelo Exame Nacional de Cursos,
o famigerado Provão. Tem muita gente fazendo suas apostas: "o
curso da faculdade X é bom ou é ruim?", "as faculdades
particulares formam apenas para o mercado?"
Julgar antecipadamente seria tão pretensioso quanto querer avaliar, numa prova de apenas
algumas horas, quatro anos de pesquisas, estudos e projetos de centenas
de professores e milhares de alunos. Porém, independente do resultado
do Provão, essa avaliação vem trazendo à tona uma série de questionamentos:
qual deve ser o perfil do profissional de farmácia nesse novo milênio?
Como deve ser a escola ideal para formar esse novo farmacêutico?
As respostas a essas perguntas passam necessariamente
por Brasília. É lá que deverá ser realizada, ainda nesse semestre,
uma audiência pública promovida pelo Conselho Nacional de Educação
(CNE) para debater o currículo do curso no país. É uma discussão
difícil que vem de longa data. O diretor do Sinfar e professor da
Unimep de Piracicaba, Manoel Roberto Santos, explica que "por quase
dez anos, do final da década de 80 até meados da década de 90, foi
travada uma profunda discussão sobre a profissão farmacêutica, puxada
principalmente pelo movimento estudantil". Autor do livro Profissão
Farmacêutica no Brasil: história, ideologia e ensino, que analisa
a questão do perfil do profissional da área, Manoel ressalta a importância
que teve essa discussão, "principalmente por se distanciar da mera
questão curricular e buscar o sentido e os objetivos da profissão".
Como resultado desses debates, a Federação Nacional
dos Farmacêuticos (Fenafar) e a Executiva Nacional dos Estudantes
de Farmácia (Enefar) publicaram e entregaram ao Ministério da Educação
(MEC), em 1996, uma proposta de reformulação do ensino de farmácia
no Brasil. Porém, pouco tempo depois, logo após instituição da nova
LDB que acabou com o currículo mínimo para os cursos e estabeleceu
a adoção de diretrizes curriculares gerais, os debates recomeçaram
e deram origem a duas propostas.
Uma, de caráter tecnicista, defendia uma formação
fragmentada e voltada para as necessidades mais urgentes do mercado.
A outra primava por uma formação mais generalista. Após mais três
anos, a comissão de especialistas do MEC unificou as propostas,
mas manteve o caráter fragmentário na proposta de diretrizes curriculares
enviada ao CNE.
De acordo com os estudantes da Enefar, "apesar
de muito criticada pelos profissionais e pela comunidade acadêmica,
a proposta do governo foi enviada para o CNE como sendo unânime.
O problema dessa proposta é que, nas suas entrelinhas, acaba com
a sólida formação que deveria ser oferecida nos cursos de farmácia,
para dividi-lo em carreiras distintas: de medicamentos, análises
clínicas e toxicológicas e alimentos".
Qual farmacêutico tem a base de seu trabalho
dissociada do medicamento? Como é possível estabelecer critérios
de divisão? Pior, sem uma formação geral e consistente, como o profissional,
num mercado especializado, vai poder superar as dificuldades criadas
pelas novas tecnologias e pela economia globalizada? Esses e outros
questionamentos levantados pelas diversas entidades representativas
do setor, como a Enefar, a Fenafar, o Sinfar e o CFF, levaram o
CNE a convocar uma audiência pública para colocar um fim nessa questão.
O problema vai além da mera discussão curricular.
O próprio MEC sabe disso e aponta outros rumos para o ensino superior
no Brasil. Ivan Valente, de volta ao Congresso como deputado federal,
alerta: "a LDB trouxe a novidade dos cursos seqüenciais. A idéia
inicial era de que fossem cursos que dariam continuidade à graduação.
Só que o MEC tem proposto que esses cursos sejam uma graduação com
duração menor, que não concederiam diploma, mas dariam o direito
de exercer a profissão como uma espécie de 'técnico no assunto'.
Isso poderia inundar o mercado de profissionais mal preparados que,
como mão-de-obra mais barata, tomariam o lugar do farmacêutico".
Além disso, como alerta o professor Manoel Santos,
é hora de rever quais são os objetivos do trabalho farmacêutico:
"primeiramente, precisamos estabelecer para quem será voltado o
modelo de assistência farmacêutica, seja no processo de discussão
curricular, seja no trabalho desenvolvido pelo profissional formado".
Na discussão do ensino de farmácia no Brasil,
a realidade da população deve ser um parâmetro melhor do que os
debates teóricos sobre um rol de disciplinas e matérias. "É preciso
que o fator currículo seja acompanhado da implementação de uma política
educacional cujas diretrizes sejam deliberadas e avaliadas por instrumentos
de controle social, como os conselhos nacionais e estaduais de saúde
e educação", opina Maria Eugênia Cury, diretora do Sinfar, da Fenafar
e uma das principais articulistas da proposta entregue ao MEC em
1996. Ela propõe que as escolas organizem suas atividades com base
nas necessidades sociais da comunidade em que estão inseridas. "O
farmacêutico está aí para servir a população e o país; esse é o
grande objetivo da nossa profissão", completa.
Enquanto a audiência pública e o Provão não chegam,
as entidades da área de farmácia procuram estimular as discussões.
Brevemente, os Conselhos federal e regionais de farmácia, com o
apoio de profissionais e estudantes, devem promover um Fórum Nacional
de Diretrizes Curriculares.
Independente das muitas opiniões, a principal característica de qualquer evento
que venha a ser promovido para debater esse assunto, deve ser a
democracia e a busca do que venha a ser melhor para o profissional
e para a sociedade para quem ele desenvolve seu trabalho. Precisamos
de um ensino que desenvolva a capacidade dos estudantes e lhes permita
lidar com as diversidades tecnológica, econômica e cultural presentes.
Um ensino que propicie qualidade, conhecimento e maior confiança
para o futuro farmacêutico trabalhar e promover a saúde e a justiça,
humanizando o contexto social e beneficiando a população. O ensino
de farmácia deve ser levado para fora das quatro paredes da sala
de aula, com consciência e responsabilidade.
Assim, iniciativas como a da Faculdade de Farmácia
da Universidade Federal de Goiás (UFG) sempre serão bem-vindas.
Recentemente, com financiamento de fundações de pesquisas, a Universidade
reestruturou seu laboratório-escola de análises clínicas e o equipou
tecnologicamente seguindo padrões profissionais. Atualmente, por
meio de um convênio com o SUS e outras entidades, o laboratório-escola,
além de dar condições ao estudante de receber um estágio de altíssimo
nível, presta relevantes serviços à comunidade ao atender diariamente
mais de 150 pessoas.
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