Governo quer disfarçar falta de política de medicamentos
(Revista Sinfarma de outubro de 2000)
O ministro da Saúde, José Serra,
bom de marketing mesmo quando não tem serviço a mostrar, resolveu
amenizar os efeitos da falta de uma política pública de medicamentos
e de assistência farmacêutica. Com o pretexto de que os laboratórios
estão boicotando a Lei dos Genéricos ele decidiu importar medicamentos
e matérias-primas do Canadá e da Índia. Também propôs que a indústria
indiana venha se instalar no Brasil para concorrer com a daqui.
A atitude não causou o impacto esperado:
o de pressionar o setor produtivo para conter reajustes de preços
e passar a produzir os genéricos. Até porque a solução do problema
não virá de um susto na indústria. Há anos que as entidades farmacêuticas
alertam as autoridades sobre os riscos da não implantação dos genéricos
como parte de uma política plena de assistência à saúde, o que só
aprofunda o abismo social entre quem pode pagar altos valores em
tratamentos especializados e quem não tem sequer o atendimento básico,
que deveria ser oferecido pelo Estado.
Cerca de 56% da população brasileira
não tem acesso a medicamentos, embora o faturamento da indústria
tenha passado de 10 bilhões de dólares em 1998, isso sem ter produzido
uma única caixa de medicamento a mais que nos anos anteriores. O
que provoca esse paradoxo? É a política de saúde em vigor, excludente
com as camadas sociais já excluídas de todos os outros direitos
sociais e humanos elementares, como emprego, escola, moradia. A
produção de medicamentos no Brasil sempre esteve voltada para atender
à demanda da população mais abastada, o medicamento nunca foi encarado
como um bem social.
Desde 93, com a assinatura do Decreto
793, que o país vem debatendo o assunto sem que o governo tome uma
atitude firme em defesa dos genéricos. Quando decide apoiar uma
legislação a respeito, o Ministério da Saúde o faz sem montar um
programa completo de incentivo à produção, distribuição e dispensação.
É mais fácil achar culpados fora do governo.
A adoção de uma política de medicamentos
genéricos, envolvendo a produção, a garantia de qualidade, a prescrição,
a dispensação e o uso dos produtos, é parte fundamental de uma diretriz
para promoção do uso racional de medicamentos no país. Em países
onde essa política foi adotada, o genérico custa de 30% a 60% mais
barato que seu referencial de marca. É uma boa forma de combater
os altos preços cobrados pelas indústrias. Basta ver que de 1994
a 1999 cerca de cem produtos tiveram aumentos que variaram de 100%
a 149%, conforme constatado pela deputada farmacêutica Vanessa Grazziotin
(PCdoB-AM) na CPI dos Medicamentos e confirmado recentemente pelo
jornal "O Estado de S. Paulo". O AAS da Sanofi subiu 186% nesse
período.
Falta estímulo à produção local de genéricos
Quando alega que a indústria
boicota a Lei dos Genéricos o governo em parte tem razão. As transnacionais
não têm mesmo interesse de diminuir seus lucros em nome do bem-estar
dos 70 milhões de brasileiros hoje alijados do acesso a medicamentos
essenciais. Mas existem os laboratórios oficiais e os nacionais
privados com potencial de produção. No entanto, eles não obtêm incentivos
governamentais para produzir, já que a matéria-prima e os insumos
são caros e precisam ser importados, com alíquotas altas.
O país também não investe
em tecnologia, que poderia ser usada na produção interna dos insumos
e matérias-primas para diminuir a dependência do país da produção
das multinacionais, que, cada vez mais, fabricam tudo em um único
país.
O Sinfar, junto com outras entidades farmacêuticas, como a Federação
Nacional dos Farmacêuticos e o Conselho Federal de Farmácia, tem
sugerido alterações na Lei 9.787 desde que ela foi aprovada, no
ano passado, com o objetivo de que ela passe a contemplar as necessidades
de uma verdadeira política de medicamentos, inclusive para garantir
a função do farmacêutico na intercambialidade dos medicamentos e
no incentivo à adoção dos similares quando não houver o genérico
correspondente.
Conforme reiterado no recente congresso da Fenafar, as principais mudanças
pleiteadas na lei são a revisão da lista de medicamentos de referência
para o registro dos genéricos, para que a base passe a ser a Relação
Nacional de Medicamentos (Rename); adoção de padrões de referência
terapêuticos e de qualidade a partir da produção oficial; revisão
geral dos registros para avaliação técnica e científica da qualidade
e da essencialidade dos produtos e cancelamento de produtos não
comercializados; equiparação dos similares aos genéricos após a
revisão dos registros; exigir a produção de medicamentos essenciais
constantes da Rename, entre outras.
Somente assim a regulamentação do setor farmacêutico, tão alardeada pelo
ministro da Saúde, poderá sair do papel e trazer reais benefícios
para a população e os profissionais da saúde.
CPI dos Medicamentos ficou na superficialidade
A CPI dos Medicamentos, encerrada em maio na Câmara dos Deputados,
se eximiu daquele que deveria ter sido seu principal objetivo: investigar
profundamente a mercantilização do setor de medicamentos no Brasil.
Dominada pela maioria governista e sob forte influência do lobby
da indústria transnacional, a comissão fez um relatório final que
não apresenta as medidas necessárias para garantir à população o
acesso aos medicamentos com qualidade, por um preço justo, nem indicou
mecanismos para coibir o cartel das indústrias.
Pelo contrário, a posição da indústria é que prevaleceu, porque as investigações
foram superficiais e as opiniões das entidades farmacêuticos foram
desconsideradas.
Por causa do jogo de cena da CPI, o Sinfar e a Fenafar, expressando
as preocupações dos farmacêuticos, sugeriram a elaboração de um
voto em separado, apresentado pelos partidos de oposição: PT, PCdoB
e PSB. O texto não foi aprovado na comissão.
Entre as principais propostas do voto estavam:
- o estabelecimento de uma política industrial que fortaleça
o desenvolvimento independente do país;
- o fortalecimento dos laboratórios oficiais, dotando-os
de verbas e capacidade técnica e científica para produção de medicamentos
essenciais;
- a revisão geral dos preços e dos registros dos medicamentos,
com implantação de um efetivo controle dos preços dos medicamentos;
- a revisão imediata da lista dos medicamentos de referência
para o registro dos genéricos, modificando a lei 9.787/99, equiparando
os medicamentos similares, revisados, aos genéricos.
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